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Opinião: violência no Ba-Vi é mais um atestado do nosso fracasso enquanto sociedade

Briga no Ba-Vi no Baianão 2018
Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia

Intolerância, impunidade, ódio e a total ausência de espírito esportivo: briga generalizada dentro de campo no clássico entre Vitória e Bahia, pelo Campeonato Baiano, se estendeu do gramado aos tribunais; Leão teve cinco jogadores expulsos 

Não sejamos tão puritanos. É um bordão antigo entre os cronistas esportivos anunciar os clássicos regionais como grandes festas, futebol de primeira e muita vibração nas arquibancadas. Infelizmente, tal cenário faz parte de um passado que resiste por meio de películas com tons desbotados em preto e branco. Os jogos envolvendo as maiores rivalidades no Brasil são marcados, ultimamente, por um flagelo nacional: a violência. No último domingo (18), o Ba-Vi, válido pela 6ª rodada do Campeonato Baiano, foi o mais recente capítulo do retrocesso de um esporte que passou a envolver mais ódio que paixão.

 

Bastidores do Ba-Vi mais vergonhoso da história

Durante a semana que antecedeu ao dérbi, o coro clamando por paz era entoado em uníssono, em Salvador. Novamente sem a necessidade da disputa com torcida única, o Barradão teria a responsabilidade de suportar as duas torcidas em utópica harmonia. Porém, as primeiras fagulhas do “incêndio” tiveram início nas redes sociais com questionamentos sobre o espaço destinado aos visitantes.

No gramado, a imagem dos jogadores abraçados antes de a bola rolar soa patética agora. Pois, logo que o juiz deu início à partida, o clima quente das arquibancadas logo foi transferido para o campo, com excesso de jogadas ríspidas, reclamações insistentes e pouca ação efetiva do árbitro. Aos 33 minutos da primeira etapa, o Leão da Barra abriu o placar com Denílson, que aproveitou rebote do goleiro Douglas. As duas equipes foram para o vestiário com os donos da casa em vantagem no marcador.

 

O segundo tempo que não terminou

Logo no início da segunda etapa, aconteceu o lance que fez do primeiro Ba-Vi do ano um caos generalizado. O Bahia teve escanteio a seu favor. Após a cobrança, a bola bateu na mão do volante Uillian Correio dentro da área. Pênalti claro que o juiz Jailson Freitas não titubeou em marcar. Na cobrança, Vinícius empatou o clássico. Até aí, tudo bem. O problema (deveria ser um?) é que o meia repetiu sua já famosa comemoração com a “dancinha do créu”. Só que a manifestação foi na direção da torcida do Vitória, o que revoltou os atletas rubro-negros.

O goleiro Fernando Miguel partiu pra cima de Vinícius, segurando o pescoço do atleta e cobrando explicações em tom desaforado. Foi o suficiente para os jogadores trocarem o futebol pela briga de rua. O autor do gol de empate foi agredido fisicamente, primeiro, por Kanu, que desferiu um soco, flagrado com nitidez pelas câmeras de televisão. Na sequência, Edson, do Bahia, golpeou Kanu. Depois, Edson recebe um murro de Rhayner. Vinícius leva mais socos, desferidos por Yago e mais uma vez por Kanu. Nilton, Douglas, Elton, Bryan e, por fim, Fernando Miguel – que acabou agredido por Edson – também participaram da confusão, que se alastrou para as arquibancadas.

 

Saldo do clássico: nove expulsos e resultado nas mãos do tribunal

Finalmente, o árbitro do Ba-Vi conseguiu aplicar as punições aos mais exaltados. No Vitória, foram expulsos Rhayner, Denilson e Kanu; no Bahia, Lucas Fonseca e Vinícius, além de Rodrigo Becão e Edson, que estavam no banco de reservas. Aos 15 minutos, o jogo foi reiniciado, mas não havia qualquer clima para chegar ao fim. Com os ânimos à flor da pele, o antijogo entrou em cena.

Aos 32 minutos, Uillian Correia foi expulso, deixando o Rubro-Negro com sete jogadores. Um minuto depois, Bruno Bispo também recebeu o cartão vermelho, situação que forçou Jailson Freitas a encerrar o clássico, aos 34 da etapa complementar – os mandantes ficaram com seis jogadores em campo, o que inviabiliza a continuidade da partida, segundo a regra.

 

Triunfo por 3 a 0 do Bahia perto da confirmação

De acordo com o presidente da Federação Baiana de Futebol (FBF), Ednaldo Rodrigues, tão logo o Tribunal de Justiça Desportiva da Bahia (TJD-BA) receba a súmula, o resultado da partida será confirmado, assim como a realização de possíveis denúncias contra os responsáveis pelos atos de violência dentro de campo. A tendência é que o Bahia fique com os três pontos. Nos casos em que uma equipe fica com menos de sete jogadores, a mesma é decretada como perdedora pelo marcador de 3 a 0. A previsão é que a decisão saia ainda nesta segunda-feira (19).

 

Onde foi que erramos?

Em pleno século XXI, o futebol brasileiro tem cada vez mais feições de Idade Média. A barbárie é a tônica de um esporte que deveria representar a alegria e a nossa capacidade de promover grandes espetáculos com a bola nos pés. Mas a falta de controle de todos os envolvidos –torcidas organizadas, jogadores, dirigentes, agentes de segurança e também setores da mídia, que acabam incitando o acirramento dos ânimos com a falta de tato na hora de comunicar – é apenas reflexo de uma sociedade que perde, a cada dia, o bom senso, a civilidade e a razão.

Infelizmente, os campos de futebol transformaram-se em locais de catarse coletiva, onde as pessoas dão vazão à injustiça, às mazelas sociais, à falta de distribuição de renda, ao caos urbano, à indignação com a corrupção dos políticos e a ausência de segurança da pior maneira possível. A paciência do brasileiro se transformou em um tonel de gasolina.

No fim das contas, os inocentes são os mais prejudicados. Interessados apenas no esporte são cada vez mais privados da possibilidade de participarem da festa. Festa? Esta não existe faz tempo. A alegria, muitas vezes externada em comemorações irreverentes, é taxada de provocação. Perdemos o direito à espontaneidade. Se o futebol brasileiro fosse um filme, o título seria “À Espera de um Milagre”.

 

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