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José Aldo é a primeira vítima dos novos tempos do UFC

Jose Aldo UFC

Imagine que você dedica anos e anos de sua vida a um trabalho. Você começa de baixo, luta, encara os obstáculos no caminho, ingressa em uma profissão inexpressiva, coloca o amor ao trabalho à frente do retorno financeiro, comete o primeiro erro no início da carreira e depois disso passa uma década (dez anos, só para fixar esse tempo) como o melhor do mundo naquilo que faz. Você saiu lá de baixo e chegou ao topo. E lá permaneceu por dez anos. Você passou por diversas empresas e chegou na maior companhia do mundo no ramo. Como empregado, você oferece tudo o que tem de melhor. Claro, você tem dias ruins, muitas vezes precisa faltar ao trabalho, mas sempre mostra profissionalismo, é honesto e, o principal: sempre levanta a bandeira daquilo que é justo. Não só consigo mesmo, mas também com seus companheiros de trabalho. É humilde, não pede nada além daquilo que merece. Nada mesmo. Deveria ser considerado um empregado exemplar, não? Qual empresa não valorizaria isso? Pois é. Ainda assim, aceita ser colocado para trás algumas vezes e “engole alguns sapos”, até que uma hora você chega ao limite.

Foi exatamente o que aconteceu com José Aldo, campeão interino dos penas do UFC e um dos maiores nomes do Brasil no MMA.

Depois de fazer uma carreira brilhante, em dezembro passado Aldo foi nocauteado por McGregor em apenas 13 segundos e perdeu o cinturão. Depois de tanto tempo como campeão, ele merecia a revanche imediata, mas não teve. O brasileiro então aceitou enfrentar Frankie Edgar pelo título interino, em julho. Ganhou, esperou e… Mais uma vez não recebeu a revanche com o rival. Pior é que ele não vai enfrentar Conor porque o irlandês, depois de se aventurar nos meio-médios (duas vezes), agora vai disputar o título dos leves. E o UFC aceitou que ele não entregue o cinturão dos penas, deixando a categoria dos penas parada desde dezembro passado. Um verdadeiro absurdo que motivou Aldo a pedir seu desligamento do UFC.

José Aldo é a primeira vítima da era onde a esportividade briga com o entretenimento. Os novos tempos chegaram ao UFC. Não foi hoje, não foi ontem. O processo avança a cada dia. E, se antes era uma dúvida que isso poderia ser perigoso ao MMA, hoje é uma certeza. Isso sempre existiu no MMA, em qualquer organização. Não se enganem. Mas no UFC, a cada ano que passa, o entretenimento parece mais forte e a esportividade mais fraca.

Não se trata de Conor McGregor ganhar a chance de disputar o cinturão dos leves do UFC. Ele tem conquistado o interesse do público e, depois de lutar duas vezes pelos meio-médios, há naturalmente interesse em vê-lo nos leves. O problema é permitir que, enquanto faz a terceira aventura fora da categoria dos penas, ele possa manter o título da divisão até 66kg. E é claro que isso foi uma exigência dele. Dana White, apesar das decisões que tem tomado, não pode ser tão submisso. Mas, quando um lutador ganha uma queda de braço desse nível com o presidente do evento, é por que algo realmente está errado.

O poder do entretenimento traz, sim, muito, muito dinheiro. E toda empresa precisa de dinheiro para evoluir. Mas a conta pode chegar um dia, ao menos em alguns mercados. No Brasil, por exemplo, um país onde o respeito às artes marciais ainda prevalece, é difícil de se explicar as razões pelas quais certas coisas acontecem (ou não) no UFC.

Por que José Aldo não teve a revanche com Conor McGregor logo após a derrota? Sim, foi um nocaute em 13 segundos, mas ele passou dez anos invicto. Ele não deveria receber a chance então após a vitória contra Frankie Edgar, em julho, depois de conquistar o cinturão interino? O que falta acontecer? Só falta McGregor querer. E quando essa decisão é de um lutador, e não do presidente do UFC, no caso seu chefe, ao menos no papel, é complicado.

Não é mole explicar por que o CM Punk, um astro do WWE (evento de lutas coreografadas), que nunca havia lutado MMA, fez uma luta em card principal e recebeu uma bolsa de meio milhão de dólares, algo que certos lutadores, por mais competentes que sejam, jamais vão conquistar. Não é fácil justificar a demora de Demian Maia e Ronaldo Jacaré para receberem suas chances pelo cinturão em suas categorias. E não é patriotismo. Fãs e especialistas do mundo inteiro pensam da mesma forma.

E José Aldo, vejam só, é o cara certo para tomar essa decisão polêmica de deixar o UFC. Ele sempre teve coragem de falar o que pensa, algo que falta na maioria dos subordinados do Ultimate e vai deixar o alerta ligado na cabeça de Dana White e dos outros dirigentes.

Até onde a força do entretenimento vai levar o UFC, maior responsável pelo desenvolvimento e crescimento do MMA no mundo?

Ainda há esperança de que José Aldo repense sua decisão ou que o UFC possa fazer um movimento decente para reparar o dano causado com as últimas ações. Mas, caso não tenha mais volta, Aldo deixa o esporte com uma mensagem clara: o entretenimento ajuda o esporte a crescer. Mas, se tomar o controle da modalidade, vai acabar nocauteando a esportividade. Esporte sem meritocracia não existe. Não é todo atleta que aceita ter sua história ignorada. E não só nas lutas. Respeito é bom em qualquer trabalho.

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